Alergia Alimentar – por Carla Maia

Assessoria de Turismo

Depois da descoberta da alergia alimentar dos meus filhos (ovo e leite) eu saí desesperada na internet a procura de receitas adaptadas para eles em que estes itens não eram utilizados.

E foi assim que a Carla Maia se apresentou a mim, através de suas receitas e principalmente da sua disponibilidade em ajudar quem se depara com este mundo totalmente novo.

Conheça agora um pouco da sua história porque com certeza vale a pena.

Fale um pouco sobre você.

Eu nasci em uma família mineira e sempre fui cercada de cozinheiras de “mão cheia”.

Minha avó, tias-avós, mãe e tias viviam a fazer doces, quitutes e quitandas para deliciosos encontros familiares onde geralmente acontecia na cozinha, o lugar mais bacana da casa.

A escolha cuidadosa dos ingredientes, os passeios pela feira na busca do alimento mais fresco, a elaboração carinhosa da refeição e a valorização do ato de compartilhar os alimentos sempre foram rotinas de minha infância e adolescência.

A paixão pela cozinha foi, assim, algo muito natural.

Ao nascer em 2014, a nossa filha, após um longo e exaustivo período de consultas e exames, foi diagnosticada com alergia às proteínas do leite de vaca (APLV).

O tratamento para a alergia alimentar é a dieta de exclusão do alergênico, no caso o leite de vaca e seus derivados.

Com o decorrer do tempo fomos introduzindo novos alimentos e algumas outras alergias foram se confirmando.

A minha grande dificuldade, naquele momento, era compreender como realizar a dieta de exclusão da alergia alimentar. Tudo que conhecia em termos culinários envolvia a utilização de alimentos que se apresentavam como um risco para minha filha.

Em uma culinária mineira – que era a culinária que povoava a minha memória alimentar – o leite de vaca, o ovo, o queijo e o trigo são ingredientes fundamentais na elaboração das receitas. E eram estes ingredientes, os alimentos alergênicos que deveriam ser excluídos imediatamente de nossas dietas. 

Percebi, então, que a cozinha, na verdade, poderia ser um poderoso espaço de exclusão.

Pessoas e famílias com necessidades alimentares especiais precisam enfrentar toda uma cultura de indiferença em relação as especificidades alimentares de cada pessoa.

Não há acolhimento, em regra, entre os familiares, os amigos, no ambiente escolar, pela indústria alimentar e pelos próprios governos.

Nesse contexto é que nasceu o projeto Menu Bacana que, na verdade, tem o propósito de contribuir com uma nova visão do ato de cozinhar e compartilhar o alimento, uma visão baseada em uma Cozinha Inclusiva

Vocês tem dificuldades para comer fora de casa (festas, viagens, restaurantes)? Como você dribla isso?

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Em razão dessa cultura da indiferença, a dificuldade de se alimentar “fora de casa” é algo permanente na vida das pessoas com necessidades alimentares especiais.

Logo no início da dieta restritiva, a pessoa com restrições alimentares – e seu núcleo familiar – percebem exatamente o que significa essa cultura da exclusão alimentar.

Imagine que um almoço de domingo na casa da avó ou uma confraternização entre amigos se transforma em um lugar de incerteza e perigo em razão dos alimentos servidos.

É verdade que com um pouco de organização e graças à marmita, é possível ir a qualquer lugar com segurança. 

A percepção de que a questão de comer “fora de casa” não se resume apenas a uma questão de uma necessidade fisiológica, mas de uma prática social muito importante para todos nós: compartilhar alimentos, ou seja, sentar em uma mesa e trocar alimentos, histórias e sentimentos.

A marmita ajuda a se alimentar, mas não supre a necessidade de convivência, troca e solidariedade que só uma cozinha inclusiva proporciona.  

Você trabalhava em qual área antes da descoberta de alergia alimentar?

Tive formação acadêmica em Direito e trabalhei por mais de 10 anos na área de inclusão social.

O tema da inclusão, portanto, sempre foi muito presente em minha vida pessoal e profissional.

A ideia de se propor um debate sobre inclusão alimentar foi algo muito natural nessa trajetória. 

O argumento fundamental da inclusão alimentar é de que  vivemos em um sistema que nega a pluralidade alimentar e considera a todos como sujeitos uniformes e desprovidos de diferenças no que tange a sua identidade alimentar.

Daí a importância de se construir uma nova cultura de acolhimento em nossas práticas culinárias. Quando Mila nasceu, me afastei daquela que era a minha profissão. 

Realizei diversos cursos na área de culinária especial e atualmente curso Gastronomia. 

O que te levou a empreender nesta área?

Tudo começou de forma muito natural, não tinha pretensão de empreender na área.

O Menu Bacana nasceu da necessidade de compartilhar com outras mães, pais e cuidadores de crianças com necessidades alimentares especiais, as nossas experiências na cozinha.

Experiências no desenvolvimento de técnicas de substituições dos ingredientes alergênicos no desenvolvimento de receitas especiais

Particularmente vejo o empreendimento nessa área como uma oportunidade de gerar um impacto social positivo, uma vez que há uma carência enorme de informações sobre como uma família pode conviver com as restrições alimentares de forma segura e positiva.

Acredito que a cozinha desempenha um papel decisivo nesse processo.

Devemos construir um novo olhar sobre a comida e o ato de cozinhar, no qual a inclusão se torne o principal ingrediente e o acolhimento o tempero indispensável.

Não se trata de desconstruir práticas culinárias centenárias, mas, ao contrário, promover um convite à experimentação de novos sabores, de modo a substituir os alimentos alergênicos por outros alimentos com funções similares.

Com uma boa dose de acolhimento e uma pitada de criatividade, qualquer prato pode ser compartilhado por todos, sem exceções.

Fale sobre o Menu Bacana.

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O Menu Bacana nasceu com o propósito de ser um espaço de compartilhamento de receitas para pessoas com necessidades alimentares especiais.

O processo de desenvolvimento de uma receita é longo, pois envolve pesquisa, estudos e testes, muitos testes.

Toda adaptação, toda nova proposta de uma produção sem qualquer alérgeno com base em uma receita tradicional demanda o emprego de várias técnicas até que as características sensoriais do alimento sejam as melhores possíveis.

Esse processo pode levar meses.

Após descobrir a receita ideal, o prato é elaborado, finalizado e fotografado.

A ideia é socializar todas as informações possíveis sobre a receita (ingredientes, técnicas empregadas, modo de preparo e conservação).

Hoje não tenho somente a intenção de compartilhar receitas, mas, sobretudo, promover o empoderamento de pessoas a se sentirem capazes de elaborar seus próprios alimentos com o objetivo de transformar uma realidade de exclusão em um convite ao acolhimento.

O outro objetivo do Menu Bacana sempre foi o de se apresentar como um instrumento de informação, conscientização e empoderamento sobre o tema das restrições alimentares.

Acredito que o conhecimento pode ser realmente libertador.

Ao começarmos a compreender que uma dieta restritiva pode ser uma oportunidade para uma vida mais consciente, pois voltamos a cozinhar, valorizar cada refeição de modo mais presente, temos a chance de diminuir radicalmente o consumo de alimentos ultra processados, enfim, uma nova forma de perceber a nossa relação com a comida tem seu início em nossas vidas.

Qual dica que você daria para quem está começando a empreender?

Tenha amor pelo seu propósito, mas é preciso alertar que a cozinha é algo glamourizado em nossa sociedade. Muitas vezes nas séries de TV,  os reality shows e publicações mostram que Chefs de cozinhas e cozinheiros são sinônimos de sucesso e status social.

Na verdade é trabalho duro, muito duro, horas e horas de trabalho intenso na cozinha e, posteriormente, mais trabalho na administração do negócio. 

Acredito, no entanto, que quando o projeto possui um propósito transformador e que gera um impacto social positivo, o empreendimento nos faz movimentarmos todos os dias em busca da viabilização de nosso objetivo.

No nosso caso, despertar as pessoas, sejam portadoras de alguma restrição alimentar ou não, para uma cultura alimentar de acolhimento, afeto e uma cozinha inclusiva. 

Inspirador, não é? Para quem ainda não conhece o Menu Bacana, segue os seus canais:

www.menubacana.com

www.facebook.com/menubacana

www.instagram.com/menubacana

 

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Andreia Cartolari é casada e tem dois meninos. Fundadora da Adapte! Turismo, mudou muitas coisas em sua vida nos últimos tempos em busca de uma vida com simplicidade e muito mais significado.

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